Arquivo da categoria: Poesias

Lar, tão doce lar

Hoje estou longe de minha casa.

Talvez tenha que cozinhar também.

Odeio cozinhar.

Como gosto de sentir o cheirinho da comida de Leudimar.

 

Parece que ouço painho chegar e pedir pra não salgar.

Ele não pode vê a sua pressão aumentar.

Tenho saudade de ouvir tantas vozes.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

 

Mainha vem passando e eu já posso sentir seu perfume francês.

Pra falar verdade, odeio perfume francês.

Mas mainha combina.

Ela cheira como rainha.

 

Eu tento disfarçar.

Mas me pergunto por quê?

Lá é meu lar,

Pois deito na rede e fico a balançar.

Eu amo esse lugar.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

 

Mais lá pra “di tardizinha” o negócio começa a esquentar.

O homem da pamonha passa e começa a gritar:

“Pamonha, pamonha feita no capricho uma delícia e você só paga um real”.

Mainha de onde estiver pedi que eu compre.

E eu bem que vou lá.

 

Ah painho, como é tímido.

A gente passa o dia em casa e nunca ouvimos sua voz.

Eu bem que insisto até ele falar.

Ele fala, mas às vezes não parece querer parar.

 

Ainda tem a melhor parte.

Minha vizinha que já chamo de tia também vem merendar.

E como se não bastasse, ela ainda fica e espera pra almoçar.

E mesmo já sendo de casa comemora quando o cardápio não é peixe.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

 

Pela manhã nem vejo a hora passar.

Quando me levanto já é hora de almoçar.

Mainha trabalha e mal vê o dia terminar.

Painho “habita” um lugar que chamamos de buraco,

Lá fica a estudar e trabalhar.

 

E a casa parece até falar.

O corredor ainda é capaz de lembrar as minhas artimanhas.

Meu quintal, ah meu quintal…

Antes não tinha cerâmica, era só reboco.

Gostava da água de coco que havia lá.

Painho sempre que ia tirar.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

Sempre que chegamos é festa.

Quando partimos nós e o povo  ficamos  a chorar.

A gente volta pra capital.

E fica de saudade até o próximo feriado.

 

A gente anda de ônibus.

A gente vai ao cinema.

A gente chora.

A gente sente falta.

 

Lá vai ser sempre nosso lar.

Mesmo que moremos aqui.

E a saudade sempre a apertar.

Queria andar de bicicleta.

E jamais esquecer como voltar.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

 

Hoje queria apenas ir pra casa.

Deitar na rede de minha sala.

Ouvir painho chegar.

Mainha passar.

O povo entrar.

 

Ah meu lar.

Meu tão doce lar.

Ainda há tempo de eu voltar?

 

Quando voltar, quero baião de dois com jabá.

Quero um abraço de estralar.

Um sorriso de se confortar.

E sempre, tão sempre, volte sempre ao seu lar.

 

 

Indyra Gonçalves Tomaz

meu EGO

de um lado eu sou e de outro eu finjo.
de um lado eu amo e de outro odeio.
de um lado sou flor e de outro espinho.
Então, quem sou?
a marca maior já foi deixada.
o beijo mais profundo já foi dado.
o abraço intenso já foi oferecido.
Onde ficam as respostas de tanto tempo?
o maior jardim é o meu.
a maior casa é a minha.
o menor olhar é o nosso.
o menor eu te amo não foi da gente.
some…
aparece…
vai…
vem…
Quem é?
Sou eu.
eu trago o sorriso e amargo a tristeza.
eu trago a juventude e a certeza da velhice.
não chores, sou eu quem é capaz de mudar .
eu sou fruto dos meus desejos.
condicionada ao meu amor próprio.
razão dos meus pensamentos.
digna de aplausos.
Não sinta inveja de mim.
sou capaz de conquistar a lua se quiser. E você?
sou a melhor amante do meu calor.
a melhor amiga de minhas confissões.
amo muito ou na medida, nem pouco nem muito, amo…
tudo é fácil quando distante e impossível quando perto.
psiu, escute direito para não confundir meu EGO!

Indyra Gonçalves Tomaz

Sabendo ser

Uma criança quando faz perguntas ao pai tenta entender o mundo em que se encontra.

Um adolescente quando faz perguntas ao pai tenta impressionar o coroa.

Um homem quando faz perguntas ao pai admite que ele é seu maior exemplo.

 

Descobri mais do que mesmo conhecia e me surpreendi com a força do acreditar.

Caminhei por lugares estranhos, mas aprendi a caminhar por eles sem me perder.

Sonhei um pesadelo que acordei com a certeza de que preciso amadurecer minhas atitudes.

 

Onde estou agora?

Nem mesmo pude participar das escolhas para a minha vida!

Estou vagando por um caminho cheio de deformações e aprendendo a ser mais.

 

Brinquei com os problemas, mas eles aproveitaram meus momentos de solidão e venceram.

Cantei a música da vida e ela me deu mais um motivo para seguir em frente.

Voei com pássaros e descobri muito mais do que o amor.

 

 

Sou uma estranha solitária. Cheia de amigos tortos. Com sonhos vivos.

Ando e não sei se já cheguei, porque os obstáculos parecem ser bem maiores.

Respiro e não sei até quando.

 

Amigos? Onde vocês estão? Será que vocês existem mesmo?

Estou aprendendo a encontrar na solidão espaço para compreensão.

Vivo sabendo de tudo e errando por não saber de nada.

 

Amor?

Quem é você?

Por que todos dizem que seu toque transforma vidas?

A minha está tão morta, tão pequena, tão sem graça…

 

Um remédio: correr e magoar.

Estou aprendendo direitinho.

Quero que cuides de mim por amor e não por gratidão.

 

Do ciúme também fui vítima, mas não fatal.

O ciúme cega o amor e deixa a loucura ser prioridade.

O amor esfriou por falta de paixão.

 

Embriago-me com palavras e com um tudo vai dá certo.

Aprendo com experiências precoces a ser madura e rude.

Sou vítima dos erros de todos, incluindo o meu.

 

Sabendo ser fui longe e parei no ponto de partida.

A vida deu a largada, mas não aprendi como se sai.

O tempo aliou-se a expectativa e adormeci ao lado da esperança.

 

Indyra Gonçalves Tomaz